Violação não é sedução!
Sexo sem o consentimento dos envolvidos, é violação. Sempre. Mesmo quando há qualquer vínculo entre vítima e agressor, incluindo o casamento. E mesmo se a mulher estava inconsciente, também aí, não houve consentimento.
Violação é a prática não consentida do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, é considerada violação.
Consentimento é a palavra-chave para que verificarmos que existe uma diferença entre sexo e violação. Sexo é consentido, e se de seguida, for sem consentimento, deixa de ser sexo e passa a ser violação.
A pessoa pode estar bêbeda, vestida de forma sensual, pode já ter dado sinais de querer ter sexo, pode estar nua e na cama, e até mesmo já ter iniciado o sexo. No momento que essa mesma pessoa declara não querer sexo, ou mesmo querer interromper o sexo, a ação deve parar (e é de referir que a ação não deve nem começar, se a pessoa não estiver em condições de dizer sim…).
O ato sexual praticado sem consentimento não é sexo: é violência. É violação. Não pode ser tão difícil que concordemos a este respeito, e precisamos levar isto muito a sério. Se quando um não quer dois não brigam, quando um não quer dois não fazem sexo. E sim, não é difícil de compreender. Afinal um não é um não.
Acima de tudo esta prática é feita a mulheres com base na cultura machista e sexista que existe na maioria das culturas societárias. E também devido ao poder físico dos homens face à menor força das mulheres. A violência contra a mulher é concreta, sistemática e balizada por números reais e dados científicos que são publicados por organizações competentes e sérias, como é o caso Eurostat e da Comissão Europeia.
Não deveríamos desperdiçar nenhum segundo a apresentar o que já está provado. É preciso que a sociedade passe a acreditar no que dizem as mulheres, e é urgente não perdermos tempo a discutir se é violação ou não. É sexo sem consentimento? É violação.
A cultura da violação, é a cultura que normaliza a violência sexual. As pessoas não são ensinadas a não violar, mas sim ensinadas a não serem violadas.
Este tipo de cultura, passa por duvidar da vítima quando ela testemunha uma violência sexual. É desdramatizar a esta violência por causa do passado da vítima ou mesmo da sua vida sexual. É ser mais fácil acreditarmos em narrativas de uma suposta sedução característica das mulheres, do que lidarmos com a realidade que os homens violam.
A cultura da violação é visível nas imagens publicitárias que objetificam o corpo da mulher. Nos livros, filmes, nas telenovelas até com cenas lésbicas, e séries que romantizam o agressor. No momento em que aceitamos como normal recomendar às meninas e mulheres que não saiam de casa à noite, ou sozinhas, ou que usem roupas sem decotes ou muito curtas, estamos a ser coniventes com este tipo de cultura também. Ou por acaso o homem é um primata que não se contém, e em que” a carne é fraca”?!
Também aqui e noutras acções que caracterizam esta cultura da violação, afirmam que a responsabilidade pela violação é da vítima, e não é. O protagonista da violação é violador.
Na cultura machista que sustenta a cultura da violação, a voz das mulheres é tomada como dissimulada e de tantos modos, negligenciada. Na cultura machista, as mulheres são malignas (Eva, bruxas, e outros demónios de aparência feminina do imaginário coletivo), e os homens são as eternas vítimas das mentiras femininas.
Mas os números não mentem tanto a nível nacional como mundial, e se a continuação do fundamento machista depende da fantasia, a realidade por seu lado fala por si mesmo com dados e factos.
Também eu aos meus 15 anos tive uma tentativa de violação por um familiar com 20 anos na altura. Pessoa de boas famílias, que cresci ao seu lado, e que por isso era normal e aceitável, até porque “fui eu que o provoquei!”, uma miúda de 15 anos que nem a menstruação tinha, muito menos sexo tinha feito mas que fui eu que provoquei um adulto autónomo.
Consegui ter sangue frio na altura, e dizer que “ali tudo poderia fazer, mas que depois de sair dali iria dizer aos homens do meu núcleo familiar e que ia à polícia fazer queixa dele”.
Não meus caros, não provoquei, não queria sexo, apenas tive boleia para ir dum sitio a outro. Simples! Como tantas outras situações de outras mulheres passaram por inúmeras outras situações, parecidas, iguais e bem piores.
Por isso, a cultura da violação é um assunto de todos! A violação é uma violência muito grave. É necessário assim, falar de machismo, de misoginia (é o ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres ou meninas), sobre o patriarcado. Porque tudo está interligado. E é preciso falar.
É necessário tantas vozes e tanto activismo feminino, devido à desvalorização de tudo o que é dito pelas mulheres e meninas, é preciso uma educação societária e mundial num todo e constante.
É preciso explicar que qualquer ato sexual que acontece sem consentimento é uma violação, com ou sem penetração, ad infinitum, é evidente que existe uma cultura da violação. Falar é uma ação, denunciar o machismo é uma ação, revelar a misoginia é uma ação. Façamos pela mudança, sejamos todos acção!








