Renascer
Recomeços, voltar à vida, um pouco do que vivo agora.
Fui mãe oficialmente há cerca de um mês atrás, e entre mensagens inúmeras de apoio pela situação complexa que está a ser em si, há de um modo geral uma ignorância generalizada sobre o parto, a recuperação, o papel da mulher e sua identidade (onde ficam após ser mãe?), e um romancear de um todo do pós-parto, e o recomeçar ou não do todo daquela mulher que se torna mãe (sim, ninguém nasce mãe caras mulheres!).
Há um todo de reflexão sobre quem sou, quem me tornei é verdade. Ou onde está a Liliana do antes e do agora (será que sou a mesma?) de mim como ser-humano e mulher.
E como é possível, se colocar o ónus da culpa do parto, da recuperação e do que corre bem e mal, quando essas mulheres e casais não sabem sequer ao que vão num parto e ida às urgências, quanto mais de inúmeros casais e mulheres que não estão informados antes do que é parir, da instituição de saúde ou local que escolhem para os seus partos, dos seus direitos e das escolhas que podem ter e fazer e serem respeitados e acederem às suas decisões nessas fases e momentos da vida?
A sociedade de um modo geral, aproveita-se que há muito o discurso do “há valeu a pena todo o sofrimento por ter parido este lindo bebé!”, para continuarem a perpetuar a violência obstétrica, a violência com o bebé e a mãe, e casos de negligência médica, quando ou não fazem queixa/reclamação do sucedido, quando generalizam todos os partos (se cada mulher está em fase diferentes da sua vida e vive assim a gravidez de modo único, porquê o generalizar dum todo e momentos únicos?), e por sua vez, porque deixamos e damos poder aos profissionais de saúde para serem soberanos sobre nós, nosso corpo e decisões?
Como por exemplo, a gravidez e o modo como a sentimos, que tipo de parto termos, e as decisões em casal a ter com informação anterior e bem estruturada do que queremos e do que não queremos.
Porque não há mais partos humanizados e equipas de saúde mais humanas e que permitam que aquele renascer de uma mulher que se torna mãe e aquele homem se torna pai, estejam seguros e confiantes com equipas que deem autonomia à mulher num parto o mais natural possível, mas também consciente e informado?
Não é a dor que tem ou deveria ser comparada, nem as episiotomias que fazem (sim equivale a MGF de acordo com o código penal em Portugal), ou o número de pontos que levam, ou se os seus bebés têm mais Índice de Apgar ou menos que o bebé da vizinha, ou se aquele bebé nasceu saudável (é apenas o que importa! onde fica aquela mulher/mãe?)…tanto a falar do parto das mulheres, tantos partos mal decididos e feitos, e que no século XXI pelo mundo, infelizmente, não só nos países subdesenvolvidos morrem mulheres e bebés nos partos, mas também nos países desenvolvidos. Como ainda isso acontece? Porque se normaliza a dor e o crime?
Tenhamos tempo para o nascer e renascer de todos os que se predispõem a serem pais e mães, para um bebé que nasce a cada segundo no mundo.








