O meu 25 de Abril e o que herdei

Há 46 anos atrás, foi o 25 de Abril de 1974.
E ainda não tinha nascido é verdade, mas sei de muita coisa que aconteceu nessa época através dos meus pais e do meu meio envolvente.
Na noite de 24 para o 25 de Abril de 1974, a minha mãe que já era enfermeira, esteve a fazer noite e a chefe dela disse-lhe para “ninguém sair do emprego porque não se sabia como estavam as ruas lá fora”. Sendo a minha mãe revolucionária como era, foi celebrar para as ruas, após ter feito noite e saído do trabalho às 8h da manhã, gravidíssima do meu irmão que nasceu a 31 de Maio de 1974.
O meu pai, que foi militar com categoria técnica na Guerra do Ultramar em Angola e tinha vindo à pouco tempo de lá, foi ter com ela ao Carmo, em Lisboa e celebraram juntos essa liberdade, em que ambos foram pessoas activas na revolução de Abril de 74. Ou mesmo a minha mãe que quando estudava enfermagem e era telefonista, sim trabalhava e estudava, não podia casar, por ser enfermeira, para ser “dedicada à sua profissão”, mais tarde e já quando namorava com o meu pai, já o era permitido. E sim, foi muito dos ideias políticos o que os uniu, e passado pouco tempo se casarem e irem viver juntos após se conhecerem depois do meu pai ter vindo de Angola.
Pormenores à parte de tanto detalhe que tenho carregado na minha herança pelo 25 de abril de 1974 e do antes no tempo do fascismo e de como era esse tempo, ainda que tanta gente chame pelo “tempo da outra senhora é que era bom”, ou mesmo do “Salazar”, ou mesmo pelas verdadeiras intenções económicas e relativas às colónias, de ter havido essa revolução dos cravos, eu amo este dia histórico que ainda hoje nós todos herdámos e eu de uma forma mais intensa.
Não só pelo que os meus pais fizeram na prática, mas também pelos valores que me foram transmitidos na minha educação, e por ter crescido a ir para a Avenida da Liberdade pelo braço do meu pai, a segurar faixas de um partido político que o meu pai foi membro activo. E mesmo a ir colocar cartazes de madrugada em época de eleições com o meu pai e os seus amigos militantes, nas ruas de Almada. Sim cresci nesse meio político, cultura, intenso, mas que faz parte de mim.
Também por isso cresci a ir votar e a exercer o meu direito e dever de voto, a participar activamente enquanto cidadã, mas acima de tudo, a arregaçar as mangas e a fazer por mim e ajudar quem pedia.
A lutar pelos meus direitos e voz enquanto mulher, a ser e a estar a mulher que sou, e sim sempre amei ser mulher, nascida em 1983, e que sempre tive liberdade de dizer o que pensava e de fazer o que queria.
O 25 de Abril de 1974, deu-me liberdade e voz. Obrigada a todos os que fizeram história em Portugal pelo nosso 25 de Abril e pela democracia em Portugal.
​Continuarei a celebrar este dia sempre, sempre.
Que bom viver Abril!

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